segunda-feira, 7 de junho de 2010

Sobre Alberto Caeiro e sua filosofia não-filosófica...

Realmente eu assassinei a proposta do blog agora: já é a segunda postagem sem nada de dissertativo e crítico. Esse é mais um texto vago, sem crítica ou análise, até porque não me vejo mais muito capaz de matematizar as ocorrências que se apresentam a mim. Leio meus textos anteriores e não concordo com a maioria deles!

Com isso só chego na conclusão que pensar demais limita, bom mesmo é aprender sentindo e fazendo, tomando as precauções básicas das quais sei que consigo desenvolver com naturalidade.

Para traduzir essa redenção da razão pura e absoluta às experiências sensíveis, vou conversar um pouco com Alberto Caeiro, um dos heterônimos do poeta Fernando Pessoa.

Caeiro vivia num ambiente rural e pouco se relacionava com valores possessivos, ou melhor, com quaisquer valores se não o valor de não ter valores. Sua única filosofia era a de rejeitar qualquer filosofia, admitindo portanto sua humanidade e nem por isso se entristecendo, pois nenhum extremo sentimental era aceito por ele.
Sua mensagem é simples e direta: "Não pense!"

"Pouco me importa.
Pouco me importa o que? Não sei: pouco me importa."

Pasme, esses dois versos tão indiferentes são um poema inteiro. O sujeito realmente não estava preocupado com nada se não viver desvinculado de atitudes românticas e radicais. Desejava simplesmente evitar essa ciência toda e tocar sua vida de "poeta da natureza".

Note que ele nem se considerava artista, pois também fugia de magnificações nas suas obras:

"E há poetas que são artistas
E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas tábuas!...

Que triste não saber florir!
Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro
E ver se está bem, e tirar se não está!...
Quando a única casa artística é a Terra toda
Que varia e está sempre bem e é sempre a mesma."


Era brilhante como Fernando Pessoa evitava sua contradição, pois uma vez que Caeiro fosse tão prático, por que escreveria poemas e os mostraria a outras pessoas? Ele deveria ter somente uma única crença e guarda-la para suas próprias ações. Porém a justificativa fica na indignação despertada quando via seres-humanos centrados demais nas suas linhas hipotéticas artificiais em demasiado.

Também é com muito estilo que o poeta nos transmite sua passividade sobre as ideias, no caso o incômodo na presença de indivíduos pouco naturais:

"Acho tão natural que não se pense,

Que me ponho a rir às vezes, sozinho,

Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa

Que tem que ver com haver gente que pensa ...

Que pensará o meu muro da minha sombra?

Pergunto-me às vezes isto até dar por mim

A perguntar-me cousas. . .

E então desagrado-me, e incomodo-me

Como se desse por mim com um pé dormente. . ."

(mas também...)

"Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem respira"

(Achei incrível, você não?)

-----------------------------------------------------------------------

Apesar dessa postura tão definida, ele admite até algumas mudanças, alguns sentimentalismos de vez enquando. Afirma, Caeiro, que é natural do ser-humano se movimentar, sentir alguns pequenos exageros, porém são raros e devem ser levados como parte do fluxo de ocorrências espontâneas da nossa vida, e não como acontecimentos extraordinários, uma vez que essa interpretação é prejudicial a nossa conduta natural.

Ta aí:

"Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra (...)

Reparem bem para mim:

Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés (...)"

----------------------------------------------------------------------------------

O heterônimo realmente muda, tanto muda que mesmo ele, o poeta sem extremos, se apaixonou por uma mulher e se sentiu todo estimulado e, logo, desequilibrado. Seria extremamente interessante se ele realmente tivesse existido, hehehe.

Vou colocar alguns trecho bem bonitos sobre o sentimentos, dos quais me identifico muito, aliás:

"Todos os dias agora acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei de fazer das minhas sensações.
Não sei o que hei de ser comigo sozinho.
Quero que ela me diga qualquer cousa para eu acordar de novo."

(Sabe quando a gente lê algo e pensa: "SOU EU!!"? Então... rsrs)

"Amar é pensar.

E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela. (...)

(...) Quando desejo encontrá-la

Quase que prefiro não a encontrar,

Para não ter que a deixar depois."

Embora esse comprometimento de sua indiferença, ele manteve-se forte nas opiniões:

"Tu não me tiraste a Natureza ...

Tu mudaste a Natureza ...

Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,

Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,

Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou. "

----------------------------------------------------------------------------

Paixão o desequilibrou, mas ele não se arrepende, nem do antes, nem do agora. Portanto nem sempre desequilibrio é ruim, desde que o administremos, não deixando-o evoluir para a falta de controle.
Sinceridade e naturalidade são essenciais para que esse amor torne-se algo saudável, independente da sua concretização.

(Opa, até consigo dissertar ainda ^^)

Espero que alguém goste do texto, até!














quarta-feira, 19 de maio de 2010

Pra quê, Fernandinho...

"Poema do amigo aprendiz
Quero ser o teu amigo. Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias..."

A carência do ser-humano é algo que não se mede, às vezes!
Esse poema de Fernando Pessoa me fez pensar em como é bonito e sincero esse pedido de paciência e ao mesmo tempo como essa necessidade de cicatrizar-se no coração dos demais é egocêntrica. Isso é superficial ao ponto que deixa de ter a sinceridade inicial. Onde está a pureza num vínculo baseado em necessidade e intenção de auto-afirmar-se? Sou romântico o suficiente para querer um motivo mais nobre, mas já que não era o caso do nosso querido autor modernista, ele tinha que me deixar confuso e irritado com esses dois últimos versos...

Sobre o resto do poema, é difícil acrescentar qualquer coisa: parece que está tudo alí. A compreenção mútua é, aparentemente, a essencia de um laço ideal entre indivíduos e a presença disso é um dos únicos fatores puros e espontâneos dentro de um vínculo (o outro seria o humor).
É lindo como não depende de quem você é, mas de como você é: desde que haja 'realidade' nas demais pessoas, tais podem estabelecer proximidade e isso rende-nos aprendizado e diversão. O lindo não é estar certo de algo, ser absoluto, SER NÃO É NADA, pois não se pode ser seguro e expressar essa segunrança, porque, para mim, sempre soa falso! Experiência e autosuficiência não estão diretamente ligados, como pode parecer, uma vez que não se pode ter certeza nem da própria existência.


""O Sol não nascerá amanhã", não é menos absurdo, do ponto de vista lógico, do que dizer "O Sol nascerá amanhã""
(David Hume - Investigações sobre o Entendimento Humano)





Estranho querer mudar o foco do blog agora, mas fiquei com vontade de divagar e simplesmente expressar o que passava pela minha cabeça ^^